Barris nucleares corroídos no Atlântico liberam césio e cobalto a quase 5 000 m de profundidade

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Um cemitério submerso com perto de 200 mil tonéis radioativos, despejados no Atlântico durante a Guerra Fria, mostra sinais claros de ruptura: fraturas no metal, vazamento de sedimentos contaminados e colonização por organismos marinhos. A descoberta, documentada por trinta pesquisadores do projeto NODSSUM, foi possível graças a uma expedição franco-europeia que mapeou a região com sonar de alta resolução e desceu com o lendário submersível Nautile até 4 700 metros.

Os estudos confirmam aquilo que já se suspeitava nas últimas décadas, mas agora com detalhes visuais e análises químicas: parte do material radioativo contido nos barris — cimentados e arremessados ao mar entre as décadas de 1950 e 1980 — está migrando para o sedimento e, potencialmente, para a cadeia alimentar das planícies abissais.

Da euforia nuclear ao passivo ambiental

Na corrida atômica do pós-Segunda Guerra, países europeus recorreram ao oceano como “depósito infinito” para rejeitos de laboratórios, usinas e reatores de pesquisa. Centenas de navios lançaram, ano após ano, tambores selados com concreto diretamente no fundo atlântico, na crença de que a coluna d’água diluiria qualquer ameaça.

Sem modelagens de longo prazo e com protocolos ambientais frágeis, a prática foi interrompida apenas na virada dos anos 1990, quando convenções internacionais passaram a vetar o despejo em alto-mar. Restou, porém, um estoque corroendo em silêncio, invisível à superfície.

Mapeamento com sonar e descidas tripuladas

A bordo do navio oceanográfico Pourquoi Pas, a equipe percorreu as coordenadas históricas de descarte, varrendo o fundo com sonar multifeixe. O retorno acústico traçou imagens semelhantes a “feixes de moedas” espalhados pela lama, facilitando o posicionamento do Nautile.

Foram vinte mergulhos sucessivos, cada um superando a marca dos 4 000 m. Sob pressão superior a 450 atmosferas, o submersível registrou vídeo em 4K, coletou cilindros de água, amostras de lodo e pequenos fragmentos de metal corroído.

Corrosão avançada e vida que se adapta

  • Mais de 70 % dos tonéis examinados apresentavam perfurações ou rachaduras longitudinais.
  • Material cimentício interno já se encontra exposto, formando plumas de partículas finas que se dispersam com qualquer corrente.
  • Anêmonas Actinoscyphia aurelia cresceram diretamente sobre a carcaça oxidada, servindo de plataforma para pequenos corais e esponjas.
  • Crustáceos, sobretudo caranguejos, utilizam as frestas como abrigo enquanto revolvem o sedimento em busca de alimento.

Radionuclídeos já alcançam o lodo marinho

Análises espectrométricas em tempo real, realizadas no laboratório do navio, detectaram isótopos artificiais de césio-137 e cobalto-60 em concentrações acima do fundo natural da região. Embora ainda baixas para padrões de risco humano, as taxas indicam que a contenção física original colapsou.

Os cientistas descrevem três processos que mantêm o material em circulação local:

  1. Bioturbação: vermes, ouriços e crustáceos escavam a lama, trazendo partículas soterradas de volta à interface água-sedimento.
  2. Correntes abissais: fluxos de água fria, mesmo lentos, varrem o platô e deslocam o material solúvel para áreas vizinhas.
  3. Adsorção e liberação mineral: argilas prendem temporariamente os radionuclídeos, mas mudanças de pH e redox podem liberá-los novamente.

Velocidade de soterramento é insuficiente

Estudos sedimentológicos da própria missão projetam que o acúmulo de lama sobre o campo de despejo é inferior a 1 centímetro por milênio em alguns trechos. Esse ritmo não consegue isolar os resíduos antes que a corrosão faça seu papel, mantendo os elementos tóxicos em contato direto com a fauna bentônica.

Riscos ecológicos em avaliação

Parte das amostras biológicas — tecidos de anêmonas, caranguejos e peixes que migram sazonalmente — foi enviada a laboratórios de radioecologia na França e na Alemanha. O objetivo é medir concentrações internas de isótopos e avaliar se já existe transferência trófica.

Resultados preliminares devem sair em seis meses, mas a equipe antecipa preocupação: organismos filtradores e depositívoros, base da cadeia alimentar profunda, parecem ser os mais expostos.

Próximos passos e pressão diplomática

O consórcio internacional planeja:

  • Instalar sensores de fluxo de radônio para monitorar vazamentos em tempo real.
  • Mapear correntes abissais com perfiladores acústicos, refinando modelos de dispersão.
  • Submeter relatórios à Agência Internacional de Energia Atômica e à Convenção de Londres para revisar protocolos de remediação.

Apesar de se discutir a possibilidade de trazer de volta alguns tonéis mais rasos — operação cara e tecnicamente complexa —, a solução mais provável é o monitoramento contínuo aliado a acordos que impeçam novas fontes de contaminação.

Legado que desafia gerações futuras

A expedição reforça a lição de que passivos nucleares não desaparecem com o tempo: podem apenas mudar de forma e de lugar. Enquanto a superfície discute a expansão da energia atômica como opção de baixo carbono, nas profundezas do Atlântico repousa um lembrete silencioso de decisões tomadas sem pleno entendimento da dinâmica marinha.

Os pesquisadores alertam que, mesmo distante dos centros de pesca comercial, o ecossistema abissal cumpre papel crucial na ciclagem global de carbono e nutrientes. A contaminação em curso, embora invisível no curto prazo, pode repercutir além do ponto de despejo caso partículas ascendam por correntes ou sejam ingeridas por espécies migratórias.

Com novos mergulhos programados e a atenção de órgãos multilaterais, o campo de barris radioativos deixa de ser apenas um capítulo mal contado da Guerra Fria para se tornar objeto de vigilância científica permanente — e um dos maiores desafios de governança dos oceanos neste século.

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Rafael Martins é redator especializado em empregos, concursos e mercado de trabalho. Produz conteúdos claros, atualizados e confiáveis para ajudar os leitores a acompanhar oportunidades, editais e dicas de carreira.