Vazamento de barris nucleares no Atlântico expõe herança tóxica da Guerra Fria

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Um cemitério submerso com cerca de 200 mil barris de resíduos radioativos, depositados no Atlântico por potências europeias há mais de meio século, começou a dar sinais de ruptura. Imagens recém-captadas a 4,7 quilômetros de profundidade mostram recipientes corroídos, rachados e já liberando partículas de cobalto e césio no sedimento, enquanto anêmonas, corais e crustáceos transformam a sucata nuclear em habitat.

A constatação foi feita por 30 pesquisadores do projeto NODSSUM a bordo do navio oceanográfico Pourquoi Pas. Munidos de sonares de última geração e do submersível tripulado Nautile, eles mapearam um dos maiores passivos ambientais da Guerra Fria e acenderam novo alerta sobre a segurança dos ecossistemas de águas profundas.

Barris corroídos revelam herança tóxica da Guerra Fria

Os cilindros metálicos, selados com camadas de cimento nas décadas de 1950 e 1960, foram lançados ao mar quando o despejo oceânico era considerado solução “segura” para rejeitos atômicos de origem industrial e acadêmica. Mais de 70 anos depois, o cloreto de sódio, a pressão hidrostática e a ausência de manutenção dissolveram a proteção anticorrosiva, expondo o conteúdo radioativo.

Filmagens do Nautile mostram fissuras percorrendo todo o perímetro dos tonéis. Sedimentos escuros, antes confinados, escapam pelas brechas e se espalham lentamente sobre a planície abissal. Entre os destroços, colônias de Actinoscyphia aurelia e pequenos corais erguem tentáculos sobre superfícies enferrujadas, enquanto caranguejos se movimentam por entre fragmentos de cimento.

Como 200 mil recipientes foram parar no fundo do Atlântico

O despejo de lixo nuclear no mar foi prática corrente de vários países europeus durante a Guerra Fria. Na ausência de depósitos terrestres capazes de armazenar material de longa vida, autoridades optaram por navios-plataforma que, em alto-mar, despejavam lotes de barris blindados. O racional da época era de que a imensidão oceânica diluiria qualquer radiação remanescente.

Relatórios confidenciais, tornados públicos a partir da década de 1990, apontam que mais de 140 mil toneladas de resíduos de baixo e médio nível foram despejadas apenas no Atlântico Norte. A estimativa de 200 mil contêineres leva em conta diferentes operações registradas em coordernadas que hoje compõem um mosaico de pontos críticos.

Tecnologia de ponta guiou expedição

Mapeamento acústico

O Pourquoi Pas navegou sobre rotas previamente simuladas em supercomputadores. Sonar multifeixe varreu 400 quilômetros quadrados de leito marinho, gerando modelos 3D detalhados que revelaram pilhas de barris dispostos em células de 15 a 20 unidades. A resposta acústica indicava degradação avançada em cerca de 60% das carcaças.

Mergulhos tripulados

Em vinte incursões, o Nautile percorreu profundidades extremas sob 480 atmosferas de pressão. A cápsula de titânio permitiu que dois operadores e um cientista coletassem amostras de lama, fragmentos metálicos e organismos aderidos aos barris. Cada saída durou em média oito horas, tempo suficiente para registrar ensaios de corrosão e medir pontos quentes de radiação in situ.

Rastreamento da contaminação radioativa

Análises espectrométricas em laboratório confirmaram a presença de cobalto-60 e césio-137, dois isótopos artificiais típicos de instalações nucleares da era pós-Segunda Guerra. A concentração é considerada baixa para ameaçar a coluna d’água superior, mas alta o bastante para afetar organismos que vivem — ou se alimentam — diretamente do sedimento.

Três mecanismos tornam o cenário preocupante:

  • Bioturbação: vermes, pepinos-do-mar e crustáceos revolvem o fundo marinho, redistribuindo partículas radioativas.
  • Correntes abissais: fluxos frios e densos levam frações solúveis a dezenas de quilômetros do ponto original.
  • Adsorção em argilas: grãos minerais retêm radionuclídeos, mas podem liberá-los novamente sob variação química.

A deposição de novos sedimentos sobre os barris ocorre a ritmo de apenas alguns milímetros por século nessas latitudes, o que significa que o soterramento completo do lixo nuclear pode levar milênios. Até lá, a integridade estrutural dos recipientes tende a piorar, ampliando o contato entre radionuclídeos e a fauna bentônica.

Próximos passos e alerta internacional

Os pesquisadores planejam nova campanha para avaliar a transferência de radioatividade pela cadeia alimentar. Tecidos de anêmonas, corais e crustáceos coletados no local estão sendo examinados em laboratórios de radiobiologia na França e em Portugal. O objetivo é estimar a bioacumulação e identificar possíveis efeitos genotóxicos.

Especialistas defendem a criação de protocolos internacionais específicos para sítios de despejo profundo, com monitoramento contínuo e responsabilidade compartilhada entre as nações que realizaram o descarte. Sem acordo, alertam, a herança tóxica da Guerra Fria pode permanecer invisível à superfície, mas ativa nos ecossistemas das grandes profundezas por muitas gerações.

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Rafael Martins é redator especializado em empregos, concursos e mercado de trabalho. Produz conteúdos claros, atualizados e confiáveis para ajudar os leitores a acompanhar oportunidades, editais e dicas de carreira.