A redação do Exame Nacional do Ensino Médio carrega peso decisivo na classificação de milhares de estudantes e vale até 1.000 pontos. No papel do corretor, cinco competências são analisadas: domínio da norma-padrão, compreensão da proposta, força argumentativa, coesão textual e capacidade de apresentar intervenção social que respeite direitos humanos. Erros gramaticais contam, mas, sozinhos, não derrubam nem salvam ninguém. É a leitura crítica do tema, aliada a argumentos bem encadeados, que empurra o texto rumo à nota máxima.
Quem garante é Glauce Soares Casimiro, professora da Uniderp e avaliadora do Enem durante uma década. Segundo ela, repertório decorado ou citações aleatórias não sustentam nota alta; é preciso mostrar por que aquela referência dialoga com o recorte proposto. Falhar nisso leva ao “tangenciamento”: o candidato até fala sobre o assunto geral, porém ignora o problema específico apontado pela prova.
Como cada competência pesa na balança
A correção se baseia em uma grade que atribui de 0 a 200 pontos para cada uma das cinco competências. O primeiro critério verifica o domínio da língua formal, ou seja, ortografia, sintaxe, pontuação e uso adequado de registro. O segundo mede o entendimento do tema e do tipo de texto dissertativo-argumentativo. O terceiro avalia a consistência lógica dos argumentos: tese clara, desenvolvimento progressivo e uso pertinente de repertórios. O quarto observa coesão e coerência, da escolha de conectivos ao encadeamento dos parágrafos. Por fim, a quinta competência exige uma proposta de intervenção detalhada, exequível, ligada ao debate e fundamentada no respeito aos direitos humanos.
Para Casimiro, a maior armadilha está justamente na segunda competência. “Quando o aluno não recorta o problema social apontado, o texto todo fica comprometido”, afirma. Basta tangenciar para a nota despencar de um patamar alto para a faixa intermediária ou baixa, mesmo que a escrita seja impecável.
Perigos do tangenciamento
Identifique palavras-chave
Antes de redigir, o candidato deve destacar termos que delimitem o foco. Se a proposta fala em “desafios para o combate à invisibilidade de comunidades tradicionais”, não adianta discorrer genericamente sobre cultura indígena; é preciso mostrar por que essas comunidades são invisibilizadas, quem perde com isso e como enfrentá-lo.
Delimite causas e consequências
Os corretores esperam que o texto exponha origem, impacto e possíveis soluções. A ausência de qualquer um desses três pontos empobrece a argumentação e corta pontos nas competências três e cinco.
O que os temas da última década revelam
De 2016 a 2025, o Enem manteve coerência ao eleger assuntos ligados a direitos humanos, inclusão, cidadania e desigualdades. Entraram na lista intolerância religiosa, educação de surdos, uso de dados na internet, acesso ao cinema, saúde mental, ausência de registro civil, preservação de povos tradicionais, trabalho de cuidado feminino, legado africano e envelhecimento populacional.
Expressões como “desafios”, “invisibilidade”, “valorização” e “perspectivas” se repetem, indicando uma exigência: o estudante precisa apontar por que o problema persiste, quem sofre mais com ele e de que forma diferentes agentes – Estado, sociedade civil, iniciativa privada e indivíduos – podem agir.
Exercícios de escrita para 2026
Embora o tema oficial permaneça em sigilo até o dia da prova, a prática constante com pautas contemporâneas amplia a versatilidade do candidato. A inteligência artificial desponta como boa matriz de treino, permitindo recortes sobre ética, educação, mercado de trabalho, proteção de dados e desigualdade de acesso. Outros possíveis laboratórios são crise climática, violência digital, segurança alimentar e mobilidade urbana sustentável.
- Treine a construir teses diferentes a partir de um mesmo assunto.
- Experimente alternar repertórios: dados estatísticos, leis, filmes, livros, acontecimentos históricos.
- Escreva dentro do tempo oficial (uma hora), simulando as condições da prova.
Três frentes de estudo até a data do exame
1. Compreender o problema
O candidato deve ler jornais, revistas, relatórios de pesquisa e portais de divulgação científica. O objetivo é criar um banco mental de informações confiáveis, capaz de sustentar argumentos sem recorrer a “achismos”.
2. Argumentar com consistência
Além de conteúdo, a redação exige estratégia. Organize o texto em quatro ou cinco parágrafos: introdução com tese, desenvolvimento em dois ou três blocos argumentativos e conclusão com proposta de intervenção. Revise conectivos, paralelismo e progressão temática.
3. Propor caminhos viáveis
Toda solução precisa nomear agente, ação, modo de execução e detalhar o efeito esperado. Dizer que “o governo deve investir em educação” é vago; “o Ministério da Educação deve criar programas de formação continuada para professores sobre uso ético de IA, destinando 2% do orçamento extra do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação a capacitações semestrais” é específico e demonstra viabilidade.
Combinando leitura ampla, treino frequente e atenção rígida ao recorte temático, o estudante transforma a redação de obstáculo em atalho rumo à universidade. Afinal, na prova em que cada ponto conta, dominar as regras formais é só o ponto de partida; o diferencial está em enxergar o problema, construir uma conversa com o corretor e, ao final, sugerir soluções que façam sentido no mundo real.