Enquanto o Brasil celebra neste 25 de agosto o Dia Nacional da Educação Infantil, a festa convive com um alerta: as crianças com deficiência, especialmente as cegas ou com baixa visão, continuam encontrando barreiras para brincar, explorar e aprender na mesma velocidade dos colegas. A data, criada pela Lei 12.602/2012, foi pensada para destacar a importância dos primeiros anos de vida, mas evidencia também a distância entre o discurso da inclusão e a realidade em sala de aula.
Números do Censo 2022 do IBGE, cuja divulgação completa está prevista para 2025, mostram que os obstáculos começam cedo e se refletem ao longo da vida. Entre as pessoas com deficiência de 15 anos ou mais, 21,3% são analfabetas — índice quatro vezes superior ao dos brasileiros sem deficiência (5,2%). Já 63,1% não concluíram o ensino fundamental, praticamente o dobro do observado no restante da população. Esses dados reforçam o papel decisivo da educação infantil na ruptura de um ciclo de exclusão que ainda persiste.
Indicadores que escancaram a exclusão precoce
O alto índice de analfabetismo entre adultos com deficiência revela o impacto de falhas acumuladas desde a primeira infância. Quando materiais adaptados inexistem, o ambiente não é pensado para a diversidade e os profissionais não dominam recursos de acessibilidade, a criança com deficiência visual passa a viver experiências paralelas: brinca menos, movimenta-se menos, recebe menos estímulo cognitivo e socioemocional. Com o tempo, a diferença vira defasagem escolar difícil de reverter.
Estudos nacionais sobre desenvolvimento infantil confirmam que o cérebro se molda com mais intensidade nos seis primeiros anos de vida. Nesse período, a visão costuma ser porta de entrada privilegiada para interpretações sobre o mundo. Por isso, crianças cegas ou com baixa visão necessitam de caminhos alternativos para construir conceitos de tamanho, forma, distância e cor. O acesso a brinquedos multissensoriais, livros em braile ou com impressão em relevo, descrições ricas de ambientes e uso de tecnologias assistivas compensa a ausência de estímulos visuais e equaliza oportunidades de aprendizagem.
Recursos ainda chegam de forma desigual
- Livros táteis e em braile custam caro e não chegam a todas as redes públicas.
- Tablets e linhas braile eletrônicas dependem de investimentos contínuos em manutenção.
- Professores relatam falta de formação para planejar atividades que envolvam tato, audição e movimento corporal de maneira intencional.
- Famílias, muitas vezes, não recebem orientação sobre como estimular autonomia em casa.
Brincar, tocar e explorar: fundamentos para aprender
Na educação infantil, o currículo se organiza em torno de experiências lúdicas. Para a criança com deficiência visual, o repertório sensorial construído por meio do toque, do olfato e da audição ganha peso ainda maior. Especialistas em estimulação precoce apontam que a exploração ativa de objetos e espaços ajuda a desenvolver noções de permanência, causa e efeito, linguagem e até relações sociais. Quando essas oportunidades faltam, a criança tende a tornar-se mais dependente de adultos, reduz a iniciativa própria e pode apresentar atrasos na fala e na mobilidade.
Outro aspecto crítico é a orientação e mobilidade: treinos simples de deslocamento na creche, como seguir um corrimão até o refeitório ou contar os degraus da escada, estimulam percepção corporal, pensamento espacial e segurança emocional. Quanto mais cedo essas competências são ensinadas, mais rápido a criança se sente parte do grupo, participa de rodas de conversa e constrói vínculos afetivos.
Laramara: três décadas investindo em autonomia
Fundada em 1991, a Associação Brasileira de Assistência à Pessoa com Deficiência Visual, conhecida como Laramara, nasceu de uma demanda familiar. O casal Mara e Victor buscava alternativas para dar à filha Lara, prematura com retinopatia, chances de desenvolvimento pleno. Sem encontrar apoio suficiente, Mara formou-se em Pedagogia, especializou-se em cegueira e reuniu profissionais de diversas áreas para estruturar um serviço pioneiro em São Paulo.
Hoje, a entidade oferece acompanhamento a crianças, jovens e adultos, promove cursos de capacitação para professores e disponibiliza tecnologias assistivas. As ações incluem: atendimento multidisciplinar com fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e psicólogos; produção de livros em braile e em relevo; oficinas de informática acessível; e encontros de orientação para famílias.
Formação de educadores é ponto de virada
Para a pedagoga Junia Buzim, que integra a equipe da Laramara, não basta adaptar materiais: é preciso preparar continuamente quem está em sala. Ela ressalta que uma educação infantil genuinamente inclusiva não cria turmas paralelas ou atividades “especiais”, mas garante que a criança participe do mesmo jogo, da mesma roda de histórias e do mesmo percurso no parquinho, sempre com ajustes que respeitem seu ritmo.
Esse olhar exige planejamento colaborativo entre professores regentes, especialistas e gestores. Quando todos compreendem o potencial e as particularidades da deficiência visual, fica mais fácil identificar barreiras, redesenhar propostas pedagógicas e avaliar o progresso sem cair em subestimação ou superproteção.
O que ainda precisa mudar nas políticas públicas
A legislação brasileira prevê matrícula prioritária na rede regular e oferta de Atendimento Educacional Especializado (AEE) no contraturno. Na prática, porém, a falta de docentes especializados, salas de recursos equipadas e transporte adaptado limita o acesso diário de milhares de crianças. Estados e municípios que avançaram na compra de materiais acessíveis esbarram na rotatividade de profissionais e na ausência de financiamento para manutenção de equipamentos complexos, como impressoras braile.
Especialistas defendem que os sistemas de ensino adotem estratégias de longo prazo, entre elas:
- Realizar diagnóstico anual de acessibilidade nas unidades de educação infantil.
- Garantir formação continuada obrigatória sobre deficiência visual nos cursos de Pedagogia e nos programas de desenvolvimento docente.
- Destinar verbas específicas para tecnologia assistiva e atualização de materiais táteis.
- Envolver famílias em ações de estimulação precoce desde o nascimento.
- Monitorar indicadores de aprendizagem para verificar se as medidas adotadas reduzem efetivamente as desigualdades.
Dia de celebrar, mas também de cobrar
O Dia Nacional da Educação Infantil foi criado para homenagear Zilda Arns, médica e fundadora da Pastoral da Criança, morta em 2010. A ideia era lembrar anualmente que a infância merece prioridade absoluta. Contudo, celebrar a data sem colocar a inclusão no centro do debate significa ignorar quase um quarto da população que convive com alguma deficiência, segundo o próprio IBGE.
Ao transformar as estatísticas em pautas concretas — mais formação, mais materiais acessíveis e mais participação das famílias — gestores públicos e sociedade conseguem aproximar o país dos compromissos assumidos em convenções internacionais. A trajetória da Laramara mostra que, quando o apoio chega cedo, a deficiência deixa de ser barreira intransponível e cada criança passa a escrever, em relevo ou tinta, a própria história de autonomia.